Vamos, desta vez, de mais um texto do meu finado projeto de instablog, Soul.Pai. Um texto sobre confiança em momentos desafiadores, e no final uma reflexão e atualização das conversas com filha, hoje em dia bem maior que na época da publicação do texto.
Essa semana, quando chegava em casa do trabalho, fui recepcionado por uma Manuela apreensiva em falar comigo. Mal fui descendo do carro e lá vem ela:
👧🏻 "Papai, vem aqui, preciso te mostrar uma coisa."
🧔🏻 "Espera um pouco, filha, papai tem algumas coisas pra descer do carro."
👧🏻 "Não, papai! Vem logo."
Ok! Fiquei intrigado e fui acompanhando ela até o quarto. Quando entramos, ela me mostrou uma concha — uma concha marítima grande, branca com bordas rosadas, que a gente tinha trazido de uma viagem à praia. Era um dos enfeites preferidos do quarto. Estava quebrada.
👧🏻 "Papai, eu quebrei a concha" — disse com uma tristeza e arrependimento no olhar de cortar o coração.
🧔🏻 "Como aconteceu, filha?"
👧🏻 "Eu fui carregar ela com muitas coisas na mão e ela caiu!"
🧔🏻 "Que chato, né, filha! Da próxima vez, em vez de carregar muitas coisas de uma vez, leva uma de cada vez, pra evitar acidentes."
Claro que fiquei chateado com o ocorrido. A concha era super bonita e agora estava quebrada! Mas brigar com a Manuela, além de não consertar a concha, iria mostrar para ela que não poderia confiar em mim quando fizesse algo errado.
Quebrar a concha foi chato, sim, mas o episódio tem um monte de aspectos que merecem ser valorizados: Manuela não escondeu o fato de mim, ela se mostrou arrependida, confiou em mim para contar algo que sabia ser errado, teve a iniciativa e a proatividade de me contar assim que cheguei.
São todos aspectos que precisam ser reconhecidos e celebrados — e são muito mais significativos que uma concha quebrada. Se ao me contar eu escolhesse (mesmo que inconscientemente) dar uma bronca nela, a confiança que ela está construindo comigo poderia se quebrar também — e seria muito mais difícil para ambos tentar reconstruí-la.
O tempo passou, a concha ficou pra trás, mas a confiança... essa segue sendo testada.
Esses dias ela fez o favor de derrubar o varão da cortina do quarto. O caso foi quase semelhante. Estava eu, desta vez, arrumando a janta da guria, quando noto ela chegando com cara de pouquíssimos amigos.
Me viro e pergunto:
🧔🏻 "Que aconteceu, Manuela?"
👧🏻 "Quebrei a cortina."
Ela se senta à mesa e suspira. Enquanto isso, vou até o quarto verificar o que aconteceu.
Quando voltei, tentando manter a classe e a compostura, falei para ela:
🧔🏻 "Tudo certo. Amanhã a gente vê como resolve isso. Bom também que aprende..."
Antes de eu terminar a frase, ela já respondeu em um tom alterado, quase um grito:
👧🏻 "APRENDE O QUÊ???"
Respirei fundo pra não entrar na bad vibes da menina. Me lembrei daquele episódio da concha, do finado blog, e das mudanças que o tempo nos traz.
Agora, com seus quase doze anos e aquela mistura de independência e intensidade emocional, ela ainda confia em mim para contar as traquinagens que anda fazendo. E isso, no fundo, é o mais importante.
Claro que ela foi advertida sobre a forma de falar comigo — respeito segue sendo inegociável — e eu fiquei pensando que vou precisar me esforçar, cada dia mais, para conhecer cada nova fase da minha filha.
E sigo me esforçando pra conhecer cada nova versão da minha filha, curtindo — com paciência — a dor e a delícia de vê-la crescer.

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